Quatro amigos e um ZX Spectrum
Alguns — não os das gerações mais recentes — ainda se lembram com uma certa nostalgia desta imagem: um ZX Spectrum.
No meu caso, tinha por volta de 22 anos e vivia a minha juventude em Portugal, acompanhado por três amigos. Éramos quatro ao todo, um pequeno grupo quase sagrado, daqueles amigos unha com carne, sempre juntos, com tempo para tudo e com aquela sensação muito própria da juventude de que os dias eram longos e havia sempre qualquer coisa para fazer.
Vivíamos as mais variadas aventuras. Quase sempre inocentes, muitas vezes imprevisíveis e, de vez em quando, um pouco inconsequentes. Bastava estarmos os quatro juntos para uma tarde banal acabar por se transformar numa história.
Era uma época diferente.
A música da juventude de então vivia em cassetes regraváveis. Gravavam-se músicas da rádio, às vezes esperando pacientemente que o locutor se calasse antes de começar a canção. Faziam-se compilações, emprestavam-se cassetes entre amigos e o Walkman, preso à cintura e com os auscultadores nos ouvidos, permitia levar a música para a rua.
As festas podiam acontecer numa garagem. Umas luzes improvisadas, uma aparelhagem, algumas cassetes escolhidas com cuidado e estava montada a discoteca da noite.
Ao fim de semana havia também o ritual das cassetes de vídeo VHS. Ia-se ao clube de vídeo escolher um filme, percorriam-se as prateleiras, liam-se as capas, discutia-se qual levar e alguém acabava sempre por garantir que aquele era muito bom. Depois vinha a sessão em casa e, claro, a obrigação de rebobinar a cassete antes de a devolver.
Foi também nessa altura que começaram a aparecer nas nossas vidas umas máquinas estranhas e fascinantes: os primeiros computadores domésticos.
Um deles era o ZX Spectrum.
Hoje parece quase impossível explicar a alguém habituado a telemóveis, Internet e jogos instantâneos o fascínio provocado por aquele pequeno computador de teclas de borracha.
Ter um computador daqueles também não era propriamente barato para um jovem português daquela época. Quem tinha mais possibilidades podia pedi-lo aos pais. Outros tinham de encontrar outra solução.
Foi o caso do Luís, um dos meus três amigos.
Nas férias de verão ia trabalhar para restaurantes. Trabalhava no duro durante semanas, enquanto muitos da nossa idade aproveitavam as férias. Mas havia uma razão muito simples para aquele esforço: gostava de ganhar o seu próprio dinheiro para depois o gastar nas coisas que realmente lhe davam prazer.
Não trabalhava apenas para juntar dinheiro. Trabalhava com um objetivo, muitas vezes já com uma compra na cabeça. E quando chegava ao fim do verão, depois de muitas horas de trabalho, permitia-se transformar o dinheiro ganho por ele próprio numa coisa que desejava mesmo ter.
Foi assim que, num desses verões, um ZX Spectrum entrou no nosso pequeno mundo.
Oficialmente era do Luís.
E, naquele primeiro contacto com a máquina, ele fazia questão de que todos percebêssemos isso.
Ligava-se à televisão. Os jogos vinham em cassetes de áudio. Colocava-se a cassete no gravador, escrevia-se o comando para carregar o programa e começava a espera.
Mas essa parte tinha uma particularidade: quem mexia no Spectrum era o Luís.
Nós ficávamos à volta, a olhar, numa ansiedade quase desmedida para que o jogo arrancasse e chegasse finalmente a nossa vez. Ele, pelo contrário, não tinha pressa nenhuma.
Carregava nas teclas, acertava o volume do gravador, voltava atrás na cassete, fazia tudo com uma calma que, para nós, era desesperante.
E talvez fosse precisamente essa a graça para ele.
Sabia que, naquele momento, era o dono da máquina, o único que dominava aquele pequeno ritual e, sobretudo, o centro das atenções. Enquanto nós esperávamos, impacientes, ele saboreava cada segundo daquele protagonismo, prolongando um pouco mais o momento antes de nos deixar entrar no jogo.
Depois começavam os chiados da cassete, as riscas coloridas no ecrã e uma nova espera.
E nem sempre funcionava.
Às vezes, depois de vários minutos, dava erro.
Para nós era quase uma tragédia.
Para ele era mais uma oportunidade de voltar a mexer no computador, reajustar qualquer coisa e começar tudo de novo, enquanto nós continuávamos ali, presos à expectativa de ver finalmente o jogo aparecer no ecrã.
Na altura ninguém achava aquilo especialmente absurdo. Fazia parte da experiência.
Nós só queríamos jogar.
Ele queria saborear o momento.
E, conhecendo-nos como nos conhecíamos, era inevitável que mais cedo ou mais tarde alguma coisa acabasse por acontecer.
E aconteceu.
Numa tarde de disputa magnífica, com um dos jogos mais sofisticados da época: o Galaxy.
No fim, havia lanche, servido pela dona Isabel, a mãe do Luís, que sempre nos apoiou naquelas tardes — mesmo quando as nossas discussões faziam um barulho pouco simpático.
P.S. — Para que ninguém pense que foram esquecidos: os outros dois compinchas desta história eram o Francisco e o Tony.